domingo, 29 de setembro de 2019

Desapego

Seus olhos, perdi de vista
Suas mãos, nunca apertei
Seus braços, não me abraçaram
Mas de todos, desapeguei-me.

Das companhias, ditas amigas
sinceras ou não, nunca sei.
Pois todos se foram um dia
e sua volta, nunca esperei.

Rocio abrigado no rosto
seu gosto, somente eu senti
a ardência da cachaça mais quente
perde para a dor do partir.

Sempre expostos a julgamentos
dos que julgam saber mais de ti
se sabem, por favor me digam
Por que tantas tristezas vivi?

Fidelidade, somente a dela
me abraça sem nunca ir
por isso me apego nela
Solidão vivificada em mim

Térmitas, ruminam a confiança
que em pó, se perde num sopro
seja do vento, ou do tempo
O inteiro se fraciona em um momento.

O apego abraçado em urtigas
                                               [de folhagens típicas de terra vazia]
Fazem um apelo ao apego:
para a jardinagem ser seletiva.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Carretel

Fios, muitos
Vários e vastos
Fios de cor
Fios de náilon
Fios esfiapados
do tecido gasto
Fios de cabelo
delicados, mas
rompem fácil
Fios de arame
firmes cortantes
Fios elétricos
eletrizantes
Fios de lã
tricotados, aquecem
Fios de sabedoria
cordéis da vida
ontem alinhavados,
por ora desfiados,
a espera por
alinhá-los.



quarta-feira, 3 de julho de 2019

Adeus

Ela desperdiçou migalhas
com fome de sobras
engoliu falhas
e vomitou faltas

Muitos partiam
poucos ficavam
no sepulcro, o vazio
dos sentimentos gastos

E no desperdício
do tempo,
do tato,
afago e contento

O sofrimento de antes
Recolheu-se no aliviante
Adeus.

domingo, 9 de junho de 2019

Confusões

Projeções 
de uma mente
Que queria,
Fazer certo,
e certamente
errou.

Autopoietica,
Conscientemente
seguiu em frente
Fazendo,
Sendo
Sem projeções.

sábado, 8 de junho de 2019

Pedaço de toco

Pedaço de toco
Partido
Pedaço de toco
Perdido

Pedaço de toco
Podre
Pedaço de toco
Polido

Pedaço de toco
Polarizado
Pedaço de toco
Perdurado

Pedaço de toco
Oco, primeiro
Torne-se inteiro
para depois
Tocar em outros tocos.

Viver

Sabe a vida?
Aquela que bate
entorta, tomba
levanta e sacode

Sabe a vida?
Aquela que leva
afoga, sufoca
abraça e solta

Sabe a vida?
Aquela que morna
queima, gela
esfria e assa

Sabe a vida?
Aquela que morde
sopra, morde
morde e assopra

Sabe a vida?
Aquela apagada
sem graça, aguada
insossa e salgada

Sabe a vida?
Muitas vezes soltamos
palavras que deviam ser prendidas
abrimos o coração
quando devíamos fechá-lo

Idas e vindas
Altos e baixos
Dor e Amor
Felicidade e despedida
Eis o viver,
do fluxo de verbalizar
a vida.



terça-feira, 4 de junho de 2019

Correntes

Eram muitas as correntes
pés, mãos e mentes
aprisionados pertences
de ninguém

Eram muitas as correntes
feriam os pulsos
feriam tornozelos
feriam-na mentalmente

Eram muitas as correntes
pesadas para andar
grossas para romper
curtas para viver

Eram muitas as correntes
vontades e saudades
cada vez mais distantes
por mais que se tente

Eram muitas as correntes
longas, embolavam-se
e no embaraço
a dor era ainda pior

Eram muitas as correntes
sol e chuva
larga-las no tempo
e quem sabe, fraca, se rompam?

Eram muitas as correntes
que prendem,
mas não matam.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Sonhos



   S
O
    N
H

    O
S

A letra S
que começa a palavra
também é a  termina

E como degraus,
subimos
 letra por letra

As suas curvas
nos curvam
às possibilidades
do SONHAR.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Umbigo

O cordão unia
duas vidas,
em duplicadas vias
ao sentido do amor

O corte do singelo elo
fez da cisão cometida,
ápices de regozijo,
choro e ferida
que marcam o nascer

Fissura cicatrizada
És herança,
jamais dividida
no ventre do ser

De concavidade muitas,
tamanhos, dimensões,
profundidades, espessuras
umbilicalmente singulares

Descobrindo-se as vestes
os esconderijos hábeis
dados ao nó na pele
desvestem o biológico mistério

Desnudado à platéia vista
posto a apuração científica
de dúvidas genuínas
o umbigo torna-se objeto

Umbigos pequenos
não precisam de espaço?

Umbigos pra fora
guardam será o que dentro?

Umbigos pra dentro
não enxergam para fora?

Umbigos alongados
estão sempre esticado?

Umbigos ovalados
tem ovos guardados?

Umbigos pra baixo
será que foram rejeitados?

Umbigos profundos
escondem o que do mundo?







sexta-feira, 8 de março de 2019

Chuveiro

Ela despiu-se e foi. Pele imperfeita, com manchas, estrias e sangue. Mas a natureza eletrificada, jamais negara o prazer de unir-se a ela, amando-a em cada detalhe, escorrendo e percorrendo por cada parte dela. A sua pele sedenta, se embebedava diariamente de pingos finos, esses que arrepiavam-lhe os pelos, desde a nuca até o bico dos seios. Era o cio que ceiava de toda seiva do corpo daquela mulher. E toda sua guarda, se curvava ao toque leve daquela ínfima porção d'água. De corpo e alma, ela se entregava ao toque que imaginava. E depois disso, toda gota que escorria, queimava. E o calor do corpo se amigava ao calor da água. Logo em instantes, o vapor já estampava todos os cantos, e escorria feito suor. E, por fim, ela deu seu primeiro intervalo dele, desligando-o, desligando-se. Mas, ele haveria de esperar  por toda imperfeição da pele  dela, que se diluia as gotas dele. Ele haveria de esperar, por todos os seus perenes toques, que lhe faltavam, pois eram eles que ligavam toda a energia que dava vida à ele. Ele haveria de esperar, pois a sua solidão se remendava a dela. Pois dos crivos dele escorriam gotas que se uniam a sujeira dela. Xeque mate! Em um lance ela leu toda a jogada, ela viu que sua fonte também precisava de energia, mas o circuito era monofásico. Ela gastava o tempo de uso dele, lhe feria a resistência e partia. Ele mostrava para o que veio, suas qualidades, mas era limitado. Uma relação já fadada ao fracasso.  O boxe tornou-se cada vez mais pequeno, tornou-se o cárcere aliado ao carrasco tempo.  Mas, eles haveriam de esperar, se quisessem ver o encanto do chuveiro tornar-se chuva,  chovendo na vida dela, em qualquer hora e lugar. Mas, ela haveria de esperar, ainda que ela  precisasse enxaguar todos os fios que asseguram a  sua caixa de sabedoria.Ela haveria de esperar, pois ainda que desligado, ele existia. Mas, tudo dependia da escolha dela, e  ela escolheu seguir. Ela seguiu com seus cabelos semi-lavados, com seu corpo semi-limpo, com sua vida semi-vivida. Ela seguiu pensando, que um dia tudo poderia ligar-se a ele, sem que fosse preciso desliga-lo mais.  Mas, ela também se preparava para caso esse dia, nunca viesse existir.
Certas vezes mulher, outras guria, constantemente humana. Novos aparelhos a serviço das suas vontades, banhos rápidos, insolúveis, e sua pele cada vez mais oleosa. Mas ainda assim, ela aguardava aquele, que deveras sabe fazer uma tempestade em seus versos e inversos, lavando corpo e também a alma.

Ela segurou, fechou bem as mãos, e apertou todos os sonhos. Ela segurou bem, para que nenhum deles se perdessem e escorressem pelo ralo, e seguiu. 

Escrito por Géssica P. Monteiro Rangel

quinta-feira, 7 de março de 2019

No caminho

Eram as pernas
Elas trocavam
De sentido

Eram as pernas
Elas corriam
apressadinhas

Eram as pernas
Elas perdiam
O destino

Eram as pernas
Elas  caminhavam
Devagarzinho

Eram as pernas
As próprias pedras
Do caminho

(Atualizado 17/04/2019)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Nariz torto

Nariz torto
respirou todo o ar
do vento frio,
e gripou o juízo

Nariz torto
não soube esperar
segurou o espirro,
e escorreu a coriza

Nariz torto
achou seu concerto
e instrumento do sopro,
tocou em surdina

Nariz torto
entortado de encanto
inspirou todo o som,
e soltou no canto

Nariz torto
a espera doutro
se encostar,
para desentortar

Nariz torto,
seu ar entregou-se
às retinas
para se reiventar

Nariz torto,
espera o outro
 lhe acompanhar
nessa tortuosa vida.



Forma de Ilha

Se ela criasse forma
eu lhe beijaria
eu lhe abraçaria
e adormeceria,calma

Se ela criasse forma
eu lhe sentiria
e  fundiria
duas em uma só áurea

Se ela criasse forma
eu lhe esquentaria
eu derreteria
o gelo, em poesia

Se ela criasse forma
eu me perderia
e tocaria
a movediça, talhe fina

Quem me dera, 
se ela criasse forma.


Atualizado 08/03/2019


sábado, 16 de fevereiro de 2019

Pipa Voada

Tentam segurá-la
mas, o tempo
mas, o vento
e toda leveza dela
escapa às mãos

Tentam segurá-la
mas sua alinhada calma
encerada, corta
estilhaçados contentos
que escapa às mãos

Tentam segurá-la
mas, o céu é seu
mas, seu eu é céu
que não é de ninguém
 escapa às mãos

Tentam segurá-la
mas, papéis manteiga
cruzam varetas d'alma
de envergadura torpe
que escapa às mãos

Tentam segurá-la
tentativas falhas
se ela quiser voar: voa.
se ela quiser pousar: pousa.
Mas se chover: ela rasga.


Atualizado: 08/03/2018