sábado, 5 de outubro de 2024

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Feito Papel

E se de repente,
somos feito papel?
Fibrosos frágeis
e temporários?

Toda saudade
caberia no recorte
do retrato,
da lembrança,
no passado.

Papéis...
Bastaria um rasgo
e se romperia o amor,
se diluia o carinho,
se reciclaria a amizade

Papéis,
bastaria uma lágrima
para esmiuçar,
Amolecer
Deteriorar

E papéis digitais,
como fazem?
Salvos no HD,
tornam-se mais um
arquivo editável.

Papéis:
contam histórias,
salvam segredos,
guardam composições
até se decompor.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Felinitude

Sabe um gato que perdeu o instinto de fera e covardemente vive uma vida doméstica, sem graça? Pois é, muitas vezes nos tornamos gatos domesticados por nossos compromissos. Fiéis ficamos aos nossos algozes, e o plano de liberdade se torna sonho distante. Afagos das nossas pequenas conquistas fazem uma antítese de euforia e desdém dos nossos dias. E seguimos fartos se alimentando da mesma ração, quando o incrível seria corrermos atrás dos ratos. E assumirmos com felinitude, os nossos instintos de felino. Enfrentando os riscos, as cambaleantes armadilhas de uma cambiante vida.  Talvez os gatos domesticados precisem somente passar fome para serem encorajados. E sim, quando a fome apertar ele saberá o que fazer. A fome é motivo que motiva o bastante. A fome tem voz própria, e ronca alto. Ninguém consegue silenciar a fome. A fome têm seu exército de mais de 820 milhões de mortos. Ninguém poderá com ela, se não tivermos felinitude suficiente para reagir. Indignação, revolta, inquietude, são formas de reação ao sistema racionado.

Encoraje-se.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Liberdade covarde

A liberdade covarde
é aquele trinco aberto
de uma porta
que não abre.

É a vontade que fica
encoberta e dorme
coberta de sonhos e
acorda cansada.

A liberdade covarde
é aquela que te entrega
as chaves das algemas,
mas lhe quebra as pernas.

É uma procrastinação
tão espessa que te segura e
não cessa.
Até que o tempo escape!

A liberdade covarde
acomoda seu corpo no sofá,
prende suas mãos e venda seus olhos
para vendo, você não enxergar.

A vida que o covarde vive,
com a audácia de chamar de liberdade,
é uma vida sem idas e nem vindas,
Sem deixar nenhuma saudade.

domingo, 29 de setembro de 2019

Desapego

Seus olhos, perdi de vista
Suas mãos, nunca apertei
Seus braços, não me abraçaram
Mas de todos, desapeguei-me.

Das companhias, ditas amigas
sinceras ou não, nunca sei.
Pois todos se foram um dia
e sua volta, nunca esperei.

Rocio abrigado no rosto
seu gosto, somente eu senti
a ardência da cachaça mais quente
perde para a dor do partir.

Sempre expostos a julgamentos
dos que julgam saber mais de ti
se sabem, por favor me digam
Por que tantas tristezas vivi?

Fidelidade, somente a dela
me abraça sem nunca ir
por isso me apego nela
Solidão vivificada em mim

Térmitas, ruminam a confiança
que em pó, se perde num sopro
seja do vento, ou do tempo
O inteiro se fraciona em um momento.

O apego abraçado em urtigas
                                               [de folhagens típicas de terra vazia]
Fazem um apelo ao apego:
para a jardinagem ser seletiva.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Carretel

Fios, muitos
Vários e vastos
Fios de cor
Fios de náilon
Fios esfiapados
do tecido gasto
Fios de cabelo
delicados, mas
rompem fácil
Fios de arame
firmes cortantes
Fios elétricos
eletrizantes
Fios de lã
tricotados, aquecem
Fios de sabedoria
cordéis da vida
ontem alinhavados,
por ora desfiados,
a espera por
alinhá-los.



quarta-feira, 3 de julho de 2019

Adeus

Ela desperdiçou migalhas
com fome de sobras
engoliu falhas
e vomitou faltas

Muitos partiam
poucos ficavam
no sepulcro, o vazio
dos sentimentos gastos

E no desperdício
do tempo,
do tato,
afago e contento

O sofrimento de antes
Recolheu-se no aliviante
Adeus.