sexta-feira, 19 de junho de 2020

Feito Papel

E se de repente,
somos feito papel?
Fibrosos frágeis
e temporários?

Toda saudade
caberia no recorte
do retrato,
da lembrança,
no passado.

Papéis...
Bastaria um rasgo
e se romperia o amor,
se diluia o carinho,
se reciclaria a amizade

Papéis,
bastaria uma lágrima
para esmiuçar,
Amolecer
Deteriorar

E papéis digitais,
como fazem?
Salvos no HD,
tornam-se mais um
arquivo editável.

Papéis:
contam histórias,
salvam segredos,
guardam composições
até se decompor.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Felinitude

Sabe um gato que perdeu o instinto de fera e covardemente vive uma vida doméstica, sem graça? Pois é, muitas vezes nos tornamos gatos domesticados por nossos compromissos. Fiéis ficamos aos nossos algozes, e o plano de liberdade se torna sonho distante. Afagos das nossas pequenas conquistas fazem uma antítese de euforia e desdém dos nossos dias. E seguimos fartos se alimentando da mesma ração, quando o incrível seria corrermos atrás dos ratos. E assumirmos com felinitude, os nossos instintos de felino. Enfrentando os riscos, as cambaleantes armadilhas de uma cambiante vida.  Talvez os gatos domesticados precisem somente passar fome para serem encorajados. E sim, quando a fome apertar ele saberá o que fazer. A fome é motivo que motiva o bastante. A fome tem voz própria, e ronca alto. Ninguém consegue silenciar a fome. A fome têm seu exército de mais de 820 milhões de mortos. Ninguém poderá com ela, se não tivermos felinitude suficiente para reagir. Indignação, revolta, inquietude, são formas de reação ao sistema racionado.

Encoraje-se.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Liberdade covarde

A liberdade covarde
é aquele trinco aberto
de uma porta
que não abre.

É a vontade que fica
encoberta e dorme
coberta de sonhos e
acorda cansada.

A liberdade covarde
é aquela que te entrega
as chaves das algemas,
mas lhe quebra as pernas.

É uma procrastinação
tão espessa que te segura e
não cessa.
Até que o tempo escape!

A liberdade covarde
acomoda seu corpo no sofá,
prende suas mãos e venda seus olhos
para vendo, você não enxergar.

A vida que o covarde vive,
com a audácia de chamar de liberdade,
é uma vida sem idas e nem vindas,
Sem deixar nenhuma saudade.