Ela despiu-se e foi. Pele imperfeita, com manchas, estrias e sangue. Mas a natureza eletrificada, jamais negara o prazer de unir-se a ela, amando-a em cada detalhe, escorrendo e percorrendo por cada parte dela. A sua pele sedenta, se embebedava diariamente de pingos finos, esses que arrepiavam-lhe os pelos, desde a nuca até o bico dos seios. Era o cio que ceiava de toda seiva do corpo daquela mulher. E toda sua guarda, se curvava ao toque leve daquela ínfima porção d'água. De corpo e alma, ela se entregava ao toque que imaginava. E depois disso, toda gota que escorria, queimava. E o calor do corpo se amigava ao calor da água. Logo em instantes, o vapor já estampava todos os cantos, e escorria feito suor. E, por fim, ela deu seu primeiro intervalo dele, desligando-o, desligando-se. Mas, ele haveria de esperar por toda imperfeição da pele dela, que se diluia as gotas dele. Ele haveria de esperar, por todos os seus perenes toques, que lhe faltavam, pois eram eles que ligavam toda a energia que dava vida à ele. Ele haveria de esperar, pois a sua solidão se remendava a dela. Pois dos crivos dele escorriam gotas que se uniam a sujeira dela. Xeque mate! Em um lance ela leu toda a jogada, ela viu que sua fonte também precisava de energia, mas o circuito era monofásico. Ela gastava o tempo de uso dele, lhe feria a resistência e partia. Ele mostrava para o que veio, suas qualidades, mas era limitado. Uma relação já fadada ao fracasso. O boxe tornou-se cada vez mais pequeno, tornou-se o cárcere aliado ao carrasco tempo. Mas, eles haveriam de esperar, se quisessem ver o encanto do chuveiro tornar-se chuva, chovendo na vida dela, em qualquer hora e lugar. Mas, ela haveria de esperar, ainda que ela precisasse enxaguar todos os fios que asseguram a sua caixa de sabedoria.Ela haveria de esperar, pois ainda que desligado, ele existia. Mas, tudo dependia da escolha dela, e ela escolheu seguir. Ela seguiu com seus cabelos semi-lavados, com seu corpo semi-limpo, com sua vida semi-vivida. Ela seguiu pensando, que um dia tudo poderia ligar-se a ele, sem que fosse preciso desliga-lo mais. Mas, ela também se preparava para caso esse dia, nunca viesse existir.
Certas vezes mulher, outras guria, constantemente humana. Novos aparelhos a serviço das suas vontades, banhos rápidos, insolúveis, e sua pele cada vez mais oleosa. Mas ainda assim, ela aguardava aquele, que deveras sabe fazer uma tempestade em seus versos e inversos, lavando corpo e também a alma.
Ela segurou, fechou bem as mãos, e apertou todos os sonhos. Ela segurou bem, para que nenhum deles se perdessem e escorressem pelo ralo, e seguiu.
Certas vezes mulher, outras guria, constantemente humana. Novos aparelhos a serviço das suas vontades, banhos rápidos, insolúveis, e sua pele cada vez mais oleosa. Mas ainda assim, ela aguardava aquele, que deveras sabe fazer uma tempestade em seus versos e inversos, lavando corpo e também a alma.
Ela segurou, fechou bem as mãos, e apertou todos os sonhos. Ela segurou bem, para que nenhum deles se perdessem e escorressem pelo ralo, e seguiu.
Escrito por Géssica P. Monteiro Rangel